O regime civil–militar (1964-1985) sob a ótica do filme Pra frente Brasil

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     Dirigido por Roberto Farias, Pra frente Brasil que reflete não somente o tempo histórico que se passa a história (1970), mas também o processo de redemocratização que estava em curso na primeira metade dos anos de 1980. O lento desmantelamento do regime civil-militar implantado em 1964 avançou cautelosamente sob o olhar atento das Forças Armadas até o seu fim, em 1985. Na época do lançamento do filme, 1982, a eleição direta para a presidência da República ainda não era uma realidade e a censura aos meios de comunicação existia de forma branda. Neste contexto, o lançamento do filme casou grande polêmica em vista da abordagem da repressão contra os guerrilheiros. Numa entrevista realizada há poucos anos, o diretor do filme afirmou que não esperava encontrar problemas com o governo federal:

 
Eu estava certo de que o governo militar não encontraria razão para mexer comigo. Havia concebido meu filme para se equilibrar no fio da navalha. Para os mais informados, deixara uma pista aqui e outra ali na narrativa: um adesivo “Ame-o ou deixe-o” na patamo usada pelos torturadores, como as usadas pela polícia da ditadura; no local onde Jofre, personagem interpretado por Reginaldo Faria, era submetido a toda sorte de torturas, ouvia-se o som de um jato que passava de vez em quando, lembrando a proximidade com o aeroporto do Galeão. Era como se eu pudesse esmurrar o adversário sem ele reclamar, porque tudo poderia ser resultado de simples coincidência. Apesar de óbvio, não se podia garantir que os torturadores no filme fossem militares. Eu acreditava sinceramente que a Censura não teria como justificar a interdição de “Pra frente, Brasil”.


     O ponto de vista de Roberto Farias revela certo grau de ingenuidade por acreditar que seu filme não seria interpretado como uma contundente crítica à violência perpetuada sob as ordens das Forças Armadas. Influenciado pelo contexto da época, o filme é corajoso ao apontar a tortura como prática de repressão, mesmo que não seja feita uma referência explicita com relação aos torturadores. À título de comparação, o filme Zuzu Angel, lançado nos cinemas em 2006, deixa claro que o filho da protagonista foi torturado e morto numa instalação das Forças Armadas. Trata-se de filmes com temáticas semelhantes, contudo a liberdade artística no século XXI no Brasil é muito maior do que era em 1982: é possível ser mais direto com relação à responsabilidade das Forças Armadas em suas ações contra os guerrilheiros sem o risco de até mesmo ter a exibição do filme vetada. 


     O enredo de Pra Frente Brasil narra o desaparecimento de Jofre – pai de família que se declara apolítico – que durante a Copa do Mundo de 1970 se torna uma vítima do regime civil-militar ao ser confundido com um guerrilheiro. Após seu desaparecimento, sua esposa Marta e seu irmão Miguel tentam descobrir seu paradeiro, mas encontram inúmeras dificuldades: o sequestro não foram noticiado pela mídia, mesmo ocorrendo num rua movimentada durante o dia (censura nos meios de comunicação); uma testemunha some após declarar que não tinha medo de falar o que viu; a polícia esconde informações dos parentes. Os personagens principais são pessoas comuns, oriundas de uma classe média que era beneficiada pelo grande desenvolvimento econômico (era a época do milagre brasileiro). Dessa forma, a questão da aleatoriedade traz um elemento de identificação para o público: qualquer pessoa poderia ser confundida com um subversivo e torturada pela repressão.  


     O filme não é baseado especificamente num fato real, mas representa de maneira eficiente o ambiente tenso da época do AI-5. O discurso político do filme não deixa dúvidas: além dos guerrilheiros que são perseguidos de maneira implacável, outras pessoas que não tinham envolvimento com a subversão poderiam ser acusadas de tal crime e serem torturadas. A tortura tem uma finalidade de expor a fragilidade do corpo humano e criar um conflito com a mente na qual os preceitos ditados pela consciência sejam temporariamente esquecidos em prol do fim dor.  Uma cena dessas num filme que retrata a ditadura civil-militar permite contatar que o Estado financiou atos ilegais de barbárie contra brasileiros que – supostamente ou não – eram guerrilheiros. O impacto das cenas de tortura em Pra frente Brasil tinham um significado de maior relevância para o público da época porque evocavam um passado recente.


     Uma das formas utilizadas pela indústria cultural para fazer propaganda é a criação de uma peça publicitária – o pôster – que visa transmitir ao público uma “ideia” sobre o tema do filme. O pôster original de Pra frente Brasil faz uma alusão deveras sutil à um dos elementos polêmicos inseridos em sua narrativa: a tortura como meio de combater a guerrilha. A imagem do pôster reproduz parcialmente a cena que ator Reginaldo Farias – que interpreta o personagem Jofre, que é tido erroneamente como um guerrilheiro – é pendurado de cabeça para baixo e agredido pelos seus sequestradores. O uso das cores (verde, amarelo, branco) remete a bandeirado do Brasil, principalmente o verde oliva do cenário – o que também lembra o uniforme do Exército. A gravata pode ser interpretada como uma referência a classe média, uma vez que o filme faz uma crítica a apatia política dos brasileiros frente ao governo federal pós AI-5. A feição séria do ator e a grafia invertida do título transite a sensação de que algo está fora dos parâmetros da normalidade. Entretanto, observa-se que a relação entre a imagem e a tortura não seria tão facilmente assimilada pelo espectador nos dias de hoje, pois a peça publicitária foi originalmente concebida em vista de um contexto histórico (Lei da Anistia, abrandamento da censura, redemocratização) que estava em sintonia com a sensibilidade política brasileira do momento. O contexto histórico nunca pode ser dissociado da expressão artística sob o risco do pesquisador diminuir sua compreensão das razões de sua fonte.
 
     Uma das características das formas de expressão artísticas é a sua riqueza de detalhes que pode ser interpretada de formas distintas ou mesmo mal compreendidas (depende do ponto de vista de quem executa a análise). A censura a Pra frente Brasil permite aos historiadores refletir sobre como as imagens que compõe o filme foram interpretadas na época de seu lançamento tanto pelo público quanto pelas autoridades federais. As imagens não são produzidas com o intuito específico de servir como objeto para pesquisa de historiadores, mas para diferentes propósitos, tais como reconhecimento artístico e retorno financeiro – o cinema é uma indústria que vende bens culturais. Em vista da distância temporal, os longas-metragens selecionados foram lançados em diferentes contextos da produção cinematográfica brasileira. Antes da extinção da Embrafilme, em 1990, a mesma lançou em março de 1982 Pra frente Brasil, que levou aos cinemas mais de um milhão de pessoas (1.298.055).

    Um dos aspectos fascinantes de Pra Frente Brasil é a forma que é representada a classe média diante às escassas informações sobre a subversão. Essa questão paira no ar, mas é constantemente ignorada pelos personagens. É um conhecimento indesejado, impróprio, que pode causar problemas se proferido em público. Numa cena, Miguel – que teve o irmão sequestrado – é levado á força para uma delegacia para prestar depoimento porque havia afirmado que algumas notícias não eram publicadas porque os jornais estavam sob censura. Se o ambiente político era tenso, no esporte o clima era festivo: após derrotar a Itália na final, o Brasil seria campeão invicto da Copa do Mundo de 1970. O próprio título do filme é o mesmo da Copa, mas também pode ser interpretado como uma ironia com relação ao ufanismo da propaganda governamental e a realidade da repressão contra os guerrilheiros. Em uma cena, os torturadores interrompem a sessão de tortura para assistir ao jogo do Brasil. A trajetória da seleção serve como contraponto ao drama da família de Jofre: o clímax do filme ocorre quando Miguel e sua amante guerrilheira Mariana são assassinados após uma fuga fracassada da polícia, enquanto flashes das cenas da vitória do Brasil são exibidos. Ao intercalar tais cenas, o cineasta Roberto Farias faz o espectador refletir sobre a importância dada à alguns aspectos da vida nacional enquanto outros são silenciados, seja pela censura aos meios de comunicação da época ou mesmo pelo esquecimento.

     Passado mais de trinta anos do seu lançamento, Pra frente Brasil é uma tentativa válida de produzir um cinema de cunho político vigoroso e que também pode ser considerado um bom entretenimento. 


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